Em dourados, Guarani-Kaiowá vivem crise humanitária, afirmam especialistas.

28 setembro, 2021

Em menos de duas semanas, três casas de guarani-kaiowá foram queimadas. Trator blindado é usado para destruir cultivos dos indígenas

Passava pouco das 11h do último dia 06 quando os moradores do território indígena Avae’te ocupado por indígenas Guarani-Kaiowá em Dourados, no Mato Grosso do Sul ouviram os primeiros tiros. A distancia era possível ver os carros que transportavam os pistoleiros se aproximando rapidamente.

Não deu tempo de salvar muita coisa: deixando nas panelas a comida que preparava para o almoço, a nhandesi uma liderança religiosa do povo Guarani-Kaiowá arrastaram para fora de casa os três filhos, de 11, 8 e 3 anos de idade.

Os criminosos atearam fogo em tudo o que ficou para trás. A ação foi registrada pelos indígenas em vídeo. A tekoha Avae’te é uma das nove áreas de retomada que se formaram, ao longo dos últimos anos, nas bordas da reserva indígena de Dourados, no sul do estado.

Trata-se de um pedaço de terra que os Guarani-kaiowá entendem como sendo seu, uma vez que foi ocupado tradicionalmente por seus ancestrais, mas que o governo brasileiro nunca demarcou. É também uma área de conflito.

Desde o final de agosto, de acordo com o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), pelo menos três casas de indígenas que moram na região foram incendiadas. Os responsáveis pelos ataques, segundo os Guarani-Kaiowá, são seguranças particulares empregados das fazendas que disputam o mesmo território.

 “Muitas pessoas se feriram nos últimos quatro anos”, conta o antropólogo Guarani-Kaiowá Tonico Benites, que acompanha a situação em Dourados.

“A cada dois meses, às vezes com maior frequência, uma casa é incendiada. As famílias vivem sob violência permanente”.  Sem ter para onde ir, conta Benites, a família vítima do ataque se abrigou em uma barraca de lona. Falta comida, e os cinco moradores da casa incendiada não têm mais roupas ou utensílios básicos.

“Organizamos uma vaquinha para oferecer alguma ajuda emergencial”, afirma o antropólogo. O clima de violência constante na região é reflexo, ao menos em parte, de uma decisão tomada pelo governo brasileiro há pouco mais de 100 anos.

A reserva indígena de Dourados é hoje a mais populosa do Brasil: abrigam mais de 20 mil indígenas. O tamanho da população contrasta com sua extensão territorial: meros 3,4 mil hectares.

Fonte: RAFAEL CISCATI

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