Artigo: Remédio é palanque político!

Não há, nos anais recentes da Medicina e da Ciência, ao menos no Brasil de um século para cá, histórico de que algum medicamento tenha sido transformado em mote ideológico e de palanque eleitoral.

Nem o uso medicinal da maconha causou tantas brigas, algumas furiosas, se determinado remédio pode ser usado ou não; se salva ou não; se mata ou não.

Talvez algo parecido só tenha acontecido quando o medico sanitarista Osvaldo Cruz determinou medidas drásticas no combate à febre amarela no Brasil no início do século 20.

Brincando com vidas humanas e colocando seus interesses ideológicos e pessoais, acima da preocupação maior com a busca de alternativas para a cura do vírus corona, a hidroxicloroquina é a salvadora do mundo para alguns e a vilã enviada pelo demônio para outros.

Sem meios termos. A possibilidade de que ela tenha efeitos positivos e ajude, junto com outros medicamentos, a derrotar a Covid 19, não interessa a um grupo de cientistas, médicos, mas, muito mais, a palpiteiros que exigem que sua opinião se sobreponha, não importa quantos morram ou quantos vivam.

De outro lado, fanatizados também, querem o uso indiscriminado da droga, como se ela não tivesse todos os riscos que um medicamento como pode ter, para o corpo humano.

Como pano de fundo, mais uma vez uma guerra ideológica, enquanto o vírus se espalha, coloca milhares de brasileiros nos hospitais, centenas deles nas UTIs, todos superlotados e mata outros milhares.

Médicos e cientistas se digladiam pelas redes sociais, cada um defendendo exatamente o oposto do outro. “Não tem qualquer indício de que a cloroquina acabe com o vírus”, defende um dos lados. “Ela já salvou milhares de vidas”, vocifera o outro.

Enquanto isso, no meio da pandemia, ficam os pobres coitados de sempre, joguetes nas mãos dos que preferem vê-los mortos e enterrados, a abrir mão de suas convicções. Pessoas sérias, algumas que dedicaram toda a sua vida para salvar vidas.

Gente decente, gente de boa índole, médicos, cientistas, pesquisadores, pessoas que fazem parte de uma casta especial da Humanidade e que nasceu para dedicar-se aos outros, de uma hora para outra se transforma, muda seus objetivos, transfigura-se, para entrar na louca discussão político/medicinal, porque nosso país e parte do mundo estão assim, rachados ao meio.

Mas o Brasil dividido é o das elites e não pelo povo pobre e sofredor. Esse está desempregado, faminto, sem perspectiva e sem futuro, enquanto os que têm seus salários garantidos estão em férias, recebendo religiosamente sua grana.

A fome passa longe desses que não precisam abrir a porta do seu comércio ou vender seu cachorro quente na esquina para sobreviverem.  Esses, os trabalhadores, os empresários desesperados, os desempregados, esses podem morrer.

Sem saber a quem recorrer, enquanto os graúdos decidem se eles podem ser salvos ou não por esse ou aquele medicamento, porque o importante é a ideologia, não a busca de salvar quem está precisando ser salvo. Uma tristeza!

Fonte: Sérgio Pires

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